Sobre pessoas e flores mortas



 Quem me conhece bem, sabe que adoro flores e plantas. Para mim, a parte mais interessante é cuidar. Já me perguntei o porquê disso, e me vi rodeada de possíveis respostas. Mas, sinceramente, não é sobre esses porquês que quero escrever agora.


Gosto de falar com as minhas plantas, tenho a sensação de que elas me escutam, hora ou outra nasce uma florzinha, após um carinho. Também já pensei sobre isso, mas cheguei à conclusão que não se trata de loucura ou delírio, simplesmente um costume que me faz bem. São seres vivos com os quais aprecio interagir.


 Além de falar com elas, adoro regar e tirar as folhas e flores secas. De uma forma bem geral, as plantas me inspiram, percebo que fazem parte das coisas que estimulam minha sensibilidade e criatividade; admiro sua beleza e sua vida.

Hoje pela manhã, quando fui cuidar delas, pensei que, diferente de nós humanos, elas simplesmente vivem. Ficam ali, paradas, apenas sendo o que são – não tentando ser outra coisa além disso. Se elas sentem, devem sentir a luz, o sol, o vento, a escuridão, quem sabe enxerguem as bactérias que não enxergamos a olho nu, quiçá vejam o pó. Ou talvez não, pois elas não têm olhos. Acho que vou me contentar em aceitar que elas apenas vivem. Não vou alimentar a esperança que uma planta sinta, pense ou enxergue, quem dirá me ouça. Embora, tenha a impressão de que essas coisas ocorram.

O fato é que a imagem de hoje mexeu comigo. É essa que você está vendo. Tirei uma foto.

Percebe que entre as flores mortas, secas e simplesmente acabadas, existe uma que reina, esbelta e cheia de vida? Lá em cima, dentre as flores mortas.

Comecei a vê-la como a minha vida e quem sabe essa metáfora também faça sentido para você.

A terra com algumas folhas secas que simplesmente caíram com o tempo, semelhante a coisas que caíram em minha vida, aquelas que eu não escolhi retirar, mas que simplesmente não cabem mais.


As folhas verdes são a vida, o ar que eu respiro, minha essência?! - Talvez.

As flores secas ou mortas - sobre elas há tanto para escrever - representam o sinal de que um dia já tiveram vida, mas simplesmente deixaram de existir. É parte da natureza. Um dia, foram lindas e belas, regadas, talvez por mim mesma, porque em algum momento eu fiz essa escolha e de alguma forma elas foram importantes para mim. E morreram, secaram, elas precisavam liberar os galhos para que a novas flores pudessem nascer, brotar, desembotar.


Sobre as flores mortas eu penso dos amores que vivi, dos empregos que passei, das pessoas feias por dentro que conheci e me afastei, e simplesmente dos momentos da vida que se foram e de uma certa forma deram espaço para novas pessoas, novos lugares, novos projetos, um novo amor, uma vida que nasce e renasce a todo instante. Algumas vezes não conseguimos arrancar essas flores mortas ou folhas secas e deixamos elas ali, penduradas, como neste vaso, uma parte sem vida, diferente de tudo que está em volta. Quando fazemos isso, não deixamos espaço para que coisas novas nasçam, cresçam, floresçam. Não fechamos ciclos antigos para permitir que novos ciclos se iniciem. Eis que, por bem ou por mal - e pode demorar - essas florezinhas mortas irão cair, e, por mais que demore, assim como na foto, algo novo e belo há de florescer!